Em 2020, participei de um curso na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), organizado pelo departamento de Informática, chamado “TECNOLOGIAS PARA O SÉCULO 21”. Um prognóstico dos efeitos disso que já está materializado em nossas vidas e que promete revolucionar, ainda mais, os meios de produção no mundo moderno.
Frequentemente, assusto-me com as previsões catastróficas e a miséria humana que, supomos, irá se impor ainda mais nessa etapa de nossa linha do tempo. Contudo, sem entrar no mérito da condicional inauguração de uma nova ética que privilegie uma sociedade mais justa e equilibrada em decorrência dessa transformação tecnológica, pretendo, aqui, relatar uma experiência recente dentro do campo da produção musical no Porta-Música.
O perfil @slowyourselfmusic recebeu uma solicitação de repertório em inglês de música cristã/gospel para fazer parte de uma lista para music supervision. Já havia uma base pronta e muito bem executada mas com uma forma indefinida. A ideia era redigir uma letra com a temática sugerida — Jesus Cristo — além de criar uma melodia e arrumar intérpretes para a canção.
Já havia feito alguns testes com o Chat GPT mas nunca havia implementado sua utilização dentro de algum contexto profissional. Entretanto, notei que este desafio poderia ser uma oportunidade para testar o aplicativo da Open AI. Abri o chat e digitei: write down a poem talking about the flame of Jesus.
Eis o que o app me trouxe:
In the heart’s chapel, a flame burns bright,
A beacon of love, a celestial light.
It flickers and dances, never to cease,
The sacred fire, the Flame of Peace.
Jesus, the Savior, with arms wide,
Ignites our souls, casts shadows aside.
His radiance kindles hope within,
A timeless warmth, a remedy for sin.
Within this flame, forgiveness is found,
A balm for wounds that have kept us bound.
In its gentle glow, we find release,
The healing touch of divine peace.
The Flame of Jesus, a steady guide,
Guiding us through darkness, side by side.
With every step, it burns so pure,
A guiding star that will endure.
In moments of doubt, when shadows loom,
This flame’s embrace will banish gloom.
It whispers courage, dispels our fears,
Rekindles faith, wipes away our tears.
With tender grace, it illuminates,
The path of love that never abates.
Its fiery essence, relentless and strong,
Empowers our hearts to right the wrong.
Let this flame inspire, let it ignite,
A world in need of compassion’s light.
May it spread its warmth, far and wide,
And in every soul, forever reside.
So let us gather, let us unite,
Under the glow of this holy light.
The Flame of Jesus, burning within,
A symbol of love that will never dim.
For in this flame, we find our way,
In His embrace, we choose to stay.
Forever alight, in our hearts it gleams,
The eternal flame, of hope and dreams.
Uma série de versos me foram apresentados, superando minha capacidade criativa, em função do meu inglês mediano. Então, agora o desafio seria adaptar o texto, extraindo os versos que tocassem minha imaginação.
Adaptei, inicialmente, a 10ª e 11ª linhas “A balm for wounds that have kept us bound / In its gentle glow, we find release,” para “A balm for wound release”.
Depois busquei socorro na 11ª e 12ª linhas “In its gentle glow, we find release / The healing touch of divine peace” que se transformaram em “A gentle glow/ A kind of flow of divine peace”. Em seguida, para concluir a primeira estrofe, saltei para as linhas 23 e 24 “Its fiery essence, relentless and strong / Empowers our hearts to right the wrong”, que em uma adaptação inicial se tornaram “ His fiery essence can be ruthless and strong /Empowering our hearts to right the wrong”.
Assim, a primeira estrofe da canção ficou:
A balm for wound release
A gentle glow
A kind of flow of divine peace.
His fiery essence can be ruthless and strong
Empowering our hearts to right the wrong.
Um novo horizonte se abriu para a música na medida em que aquela estrofe já carregava algum sentido que atravessava junto aqueles versos. Naturalmente, a mensagem cristã fez parte de minha formação moral e dessa forma eu tive alguma facilidade na seleção das palavras e ideias sugeridas pelo Chat GPT, e, mesmo na criação livre de versos, como o que iniciei a segunda estrofe: “You are the shepherd of men”.
Cumpre-se dizer que antes de iniciar o labor junto ao chat, eu já havia cantarolado uma melodia, ao longo da música. Então, havia uma forma melódica semi estruturada que receberia as palavras em inglês. A maneira que gravei a melodia foi cantarolando, livremente, sobre a base musical e utilizando algumas palavras em inglês que me vinham à cabeça, totalmente non sense.
Foi um artifício valioso pois algumas palavras soaram bem e pude pesquisar no chat algumas palavras que pudessem dialogar com elas, conformando a segunda estrofe em:
You are the shepherd of men
a steady guide that cannot wane,
Jesus is the name I can praise
Segui com este processo de escrita relatado nos parágrafos anteriores e criei mais duas estrofes, finalizando a primeira versão da letra desse jeito:
A balm for wound release
A gentle glow
A kind of flow of divine peace.
His fiery essence can be ruthless and strong
Empowering our hearts to right the wrong.
You are the shepherd of men
a steady guide that cannot wane,
Jesus is the name I can praise
As a beacon of love, day by day,
lighting me to dance, It’s my flame
The sacred fire exhales my pain
A celestial light flickers toward the sun
(It) makes a boom boom sound and a purple rain
Jesus with arms wide
casts shadows aside
Forgives and let the love in
You are my lord
Come on and sing with me/You’re my folk remedy
Em posse da primeira versão pronta, pude burilar melhor os detalhes da canção, experimentando palavras que fizessem mais sentido, que fossem mais coloquiais e que entronassem a figura central da música, isto é, Jesus!
Acessei pela rede um amigo que mora na Inglaterra e que reencontrei recentemente em férias aqui no Brasil. Trata-se de Ivan Thunders, DJ do “Coffee and Turntables” e guitarrista do “Thee Lucifer Sams” (cabem risos aqui nessa referência, não é mesmo?). Ele apontou algumas palavras que não faziam muito sentido dentro da língua inglesa, falada no dia-a-dia. Uma delas foi a do verso que abre a música: “A balm for wound release” que, após a revisão, se tornou “ A balm to soothe my soul”.
Então, após essa revisão, a música atingiu sua versão final:
A balm to soothe my soul
A gentle glow
A kind of flow of divine peace.
His fiery essence, can be ruthless and strong
Empowering our hearts to right the wrong.
You are the shepherd of men
steady guide that cannot wane,
Jesus is the name I can praise
As a beacon of love, day by day,
lighting me up to dance, It’s my flame
The sacred fire exhales my pain
A celestial light flickers towards the sun
Makes boom boom sound and a purple rain
Jesus with arms wide
casts shadows aside
Forgives and lets the love in
You are my lord
Come on and sing with me
You’re the tone of my melody
Melodia e letra resolvida, pude, então, lançar mão de outro recurso que o tempo presente nos permite que foi a contratação e gravação virtual de duas cantoras que vivem na Europa: uma inglesa e outra portuguesa.
No Porta-Música utilizo com frequência em meus arranjos músicos arregimentados na plataforma Musiversal, uma start up portuguesa que oferece um banco de músicos de estúdio de alto nível. Pois agendei duas sessões com elas e lhes enviei uma guia da música com minha própria voz. Este é um recurso que favorece as ideias que estejam mais estruturadas e bem descritas no briefing para os músicos, pois a sessão dura pouco tempo.
Ademais, Musiversal tem bem resolvido também as questões legais que amparam o direito autoral de uso de som, um fato que agiliza e simplifica a produção.
Tão logo recebi os arquivos das vozes pude finalizar a mixagem e masterização da faixa, que recebeu o título “LETS THE LOVE IN”. Foi um processo muito harmonioso e que teve o tempo otimizado pela utilização destes recursos tecnológicos que estão revolucionando nossa forma de criar.
Concluo, avaliando que o processo criativo se adapta, facilmente, às novas ferramentas e que a seleção do que é favorável, ou não, à música, isto é, as escolhas estéticas pertencem ao domínio do espírito, ainda que o processo de machine learning tente nos convencer do contrário.
Quem tiver interesse em conferir “LETS THE LOVE IN”, acesse: ().
E quem quiser gravar sua tão sonhada música ou precisar de ajuda para escrever arranjos, arregimentar músicos, mixar e masterizar sua canção, pode contar comigo e o Porta-Música. Existimos para você.

